quinta-feira, 18 de abril de 2013


Um encontro com Anderson Pikachu, o mascotinho do Arpoador que acaba de retornar da viagem dos seus sonhos.

Por Lucas Gayoso

Posto 8 da praia de Ipanema. Sento no banco quente do calçadão enquanto espero a hora marcada para o encontro. O sol castiga dando breves tréguas entre as poucas nuvens do céu azul de um típico dia de verão carioca. Observo o mar sem ondas, enquanto na areia vendedores começam a levantar suas barracas entre os esportistas matinais. Não muito distante, pássaros compõem o famoso cenário sobrevoando a pedra do Arpoador, lugar preferido de Anderson da Silva, mais conhecido como Pikachu, um típico moleque de 13 anos criado na comunidade do Cantagalo, zona sul do Rio de Janeiro.
Após receber uma ligação da avó de Anderson, entro na Rua Teixeira de Melo e sigo pela calçada arborizada até o elevador que dá acesso à comunidade. De longe, avisto um garoto vestido de camisa vermelha e vou ao seu encontro. Pikachu poderia facilmente ser confundido com qualquer menino bom de bola nos campos de terra batida dos morros cariocas. Magrinho e com pinta de driblador, ele diz que até se arrisca nas peladas dos amigos, mas está na cara que sua praia é outra. Por influência de um tio surfista, Anderson começou a surfar aos quatro anos e cresceu descendo as ladeiras do Cantagalo e as ondas do Arpoador. Não demorou para virar o mascote da praia
Tímido e com cara de sono, Pikachu não é de muitas palavras. Puxo assunto sobre o último fim de semana de ondas para quebrar o gelo, enquanto subíamos pelas vielas do morro até um bom lugar para fotografar. No caminho, ouço uma menina gritando: “Ih, a lá, Pikachu virou guia!”. Mas ele não dá papo e depois de subir uma longa escadaria chegamos ao nosso destino. Sobre a origem do apelido a resposta é no mínimo cômica. Seu tio dizia que ele tinha uma cabeça enorme quando criança, como o personagem do desenho animado Pokémon. “Eu nem gosto muito, mas eles ficam me chamando, aí eu olho pra trás e converso com eles”, dispara com expressão indiferente.

Sentamos na escadinha de uma casa humilde, como todas as outras ao nosso redor. É possível observar os prédios da cidade e a imensidão oceânica de Ipanema – vista mais privilegiada do que qualquer varanda de luxo do bairro nobre da zona sul. Paredes de tijolos grafitadas com personagens e cenas cotidianas da favela oferecem identidade e poesia ao local, que parecia ambientar a atmosfera melancólica de um samba antigo de Cartola. Logo no início da conversa, Pikachu parece ansioso em contar sobre sua experiência havaiana.
Todo mundo se conhece no morro. Não demora e somos rodeados por amigos curiosos com a minha presença. Eles participam entusiasmados do papo, listando as manobras radicais e vitórias em campeonatos do amigo surfista. Pikachu é bicampeão do circuito carioca Sub-14 e já é considerado um camisa 10 entre as revelações do Arpoador. Mas apesar de ter trocado as chuteiras e a bola de futebol por parafina e prancha, Anderson é uma criança comum e gosta de se divertir da mesma maneira que qualquer garoto da comunidade quando não está surfando. Soltar pipa, jogar futebol, correr solto pela areia da praia brincando com os seus amigos, pular da Pedra do Arpoador e ouvir música fazem parte do seu cotidiano.
Um vento forte sopra carregando algumas poucas folhas secas no chão. Pipas coloridas tomam conta da paisagem, acompanhadas pelo olhar atento do menino. Hoje não vai dar onda, mas Pikachu certamente vai encontrar outro jeito de se divertir. Segurando a linha da pipa, ele flutua e vai rasgando o céu, enquanto nuvens se movimentam como a espuma das ondas. As mesmas que sobrevoou para realizar um sonho que parecia impossível.

“Sonhar é acordar-se pra dentro”. – Mário Quintana

O HOMEM DA CASA

Filho único, Pikachu mora com a sua avó, mãe, tia, duas primas e um sobrinho recém-nascido numa casa no alto do morro. Ele já pensa em se tornar um surfista profissional bem sucedido e poder dar uma vida melhor para a sua família, mas para isso sabe que ainda tem muita luta pela frente. Anderson conta o apoio do Favela Surf Clube, projeto social criado por surfistas do morro do Cantagalo e Pavão/Pavãozinho para ajudar crianças da comunidade a seguirem um caminho saudável dentro do esporte, longe das drogas e presente na escola. Entre outras coisas, o projeto oferece treinamento, suporte para viagens, pranchas e acessórios para o pequeno surfista, com a condição de que ele esteja indo bem nos estudos. Bom aluno em português e matemática, Pikachu tira a lição de letra e não mata aula nem pra surfar.

“A escola é importante porque é um lugar bom pra mim. Agora passei para a quinta série e ganhei uma prancha nova. Fiquei muito feliz!”, completa.
Graças ao seu carisma, o bom desempenho tanto dentro d’água quanto na sala de aula e a ajuda do surfista profissional Simão Romão (padrinho do Favela Surf Clube e referência para os jovens surfistas da comunidade), Pikachu realizou um sonho. No ano passado, Simão começou a campanha para arrecadar dinheiro para cobrir os custos da viagem para o Hawaii, que pretendia levar, além de Anderson, os surfistas Nem (21) e Mancini (14), que ficou fora da trip por conta de indisciplina na escola. Apesar de a campanha ter sido bem veiculada na internet, a quantia não foi suficiente e Simão recorreu as suas próprias economias para bancar a viagem. Sobre o inicio da aventura, Pikachu comenta: “Não fiquei com medo de avião, só deu um friozinho na barriga, depois que subiu fiquei tranquilinho, aí deitei e dormi. Chegamos em Dallas e depois pegamos outro avião até o Hawaii. Nem acreditei onde eu estava.”
Anderson é interrompido por um de seus colegas, que pergunta curioso sobre como é voar de avião. Mas ele parece mais a fim de falar sobre sua experiência em picos como Pipeline, Backdoor, Rocky Point e Haleiwa. “No dia que eu caí em Pipeline tinha seis pés para Backdoor e 1 metro para Pipe. Fiquei lá porque é esquerda e abria, a onda ia até a areia e eu ia manobrando até o final”, comenta empolgado, como se tivesse descrevendo os dribles antes de marcar um golaço num estádio lotado de futebol.

O ESCAPE PARA UMA VIDA DIFERENTE
Entre uma session e outra, Pikachu aproveitou para conhecer seus ídolos do surf, como Eddie Rothman (o famoso “xerife”), Gabriel Medina, Bruce Irons, Ricardo dos Santos, Mick Fanning e outros grandes nomes. Também participou de uma série para o Canal Off, que registrou um diário da trip com imagens do filmmaker Gustavo Marcolini. Mas como não poderia ser diferente, perrengues também fazem parte do aprendizado. Anderson me conta tomou um dos piores caldos da sua vida, despencando parede do tubo de uma onda grande em Pipeline, que o fez girar várias vezes debaixo d’água e em seguida tomar outra onda na cabeça, até ser levado para a areia. No entanto, o moleque tem peito e diz estar pronto para a próxima.
Pikachu olha pra mim de um jeito diferente. Ele passa alguns minutos falando sobre as melhores ondas de sua vida, a beleza da paisagem, os atrativos turísticos de Waikiki e até das roupas novas que comprou no shopping. Sinto na sua expressão que esses momentos narrados de forma tão simples significaram uma enorme expansão de perspectivas para o menino que, mais do que nunca, possui o olhar cheio de liberdade e confiança de que com a prancha no pé pode chegar onde quiser, superando as dificuldades de uma realidade difícil. Ele me conta que já vê amigos envolvidos com drogas e companhias erradas, mas garante que o surf é o seu escape para uma vida diferente, planejando um dia conhecer lugares como Austrália, Tahiti e Indonésia. “Era o meu sonho ter ido pro Hawaii, queria ver se as ondas eram daquele tamanho mesmo. Obrigado Simão por essa importância que você me deu!”, diz.
Uma linha de pipa é cortada e vai descendo no céu. Pikachu interrompe nossa conversa lembrando que está na hora da escola, enquanto eu olho o relógio e me dou conta que preciso voltar para a redação. Até a próxima, moleque!

2 comentários: